(Escrito por Jane Abel 30/06/2004)
Quase 24hs… e me deu vontade de contar sobre um dia quase normal… mas com um toque de poesia…
Gosto de visitar minhas obras em dias variados, mas nunca certos… não gosto de rotina para nada e prefiro chegar sempre sem avisos… Hoje resolvi “correr” as obras todas, num único dia e escolhi o dia mais nebuloso da Capital…
Moro quase na região central da cidade, bairro Praia de Belas ou Menino Deus (há controvérsias mesmo dos Correios).
Pela manhã saí em direção à Belém Novo, zona sul de Porto Alegre… frio e umidade… faço lá uma casa que mais parece um resort… para casal e dois filhos… acho que vão se perder lá dentro mas é linda… lote de 5 mil m² e casa principal de quase 1.000 m², mais quadra de esportes, salão de festas, canil, anexo de automóveis… … Belém Novo fica há 28 km de onde moro e o caminho pela beira do rio torna tudo menos cansativo e mais prazeiroso, mas hoje a neblina era tal… que o encantamento nem me deixou perceber os km que corriam junto comigo… me senti apenas participante de um espetáculo natural muito bonito… a densa névoa parecia ser palpável… poderia ser cortada à tesoura… e quando subia e descia as elevações desta topografia deslumbrante da minha cidade ficava abaixo (ou acima) da névoa, como se flutuasse… ou como se tivesse sob mim uma nuvem de algodão… Belém Novo é um bairro balneário, beira de rio, quase zona rural.
Obra… verificações e novo caminho – de volta… Ipanema, outro bairro na beira do rio… Restaurante na frente de nosso cinquentenário Bologna… construído sobre recúo viário, interditado há 03 anos pela Prefeitura… estou fazendo demolição e reconstrução, agora no alinhamento correto… quase quase beira do rio de novo… por sobre as águas do rio, a neblina era como espuma, ainda densa e o sol mal e mal se avizinhava por trás das nuvens… deixando a palheta de cores confusa e deslumbrante… difícil de reproduzir mesmo pelo artista mais talentoso… Era bonito de ver o efeito desta neblina na copa das árvores, como um imenso sombreiro de proteção… a cidade de Guaíba do outro lado da margem, era não mais do que imaginação… nada nada era visto além da bruma densa que tangia o rio… o deixando como uma estrada possível de ser atravessada…
Vamos em frente… que a nova casa de um empresário também fica de frente para o rio… Vila Conceição… Prainha, como chamamos aqui… ruazinha de 300m de extensão… e lá está a casa sendo erguida, saída da prancheta para a vida real… de frente para o rio majestoso que um dia olharei do meu terraço… o rio que nesta hora da manhã expulsava com seu calor a bruma fria que o encobria por inteiro como um manto… e aí povo… o espetáculo era de tirar o fôlego… …a casa fica exatamente na frente do rio e a água batia nas imensas pedras, com som de finitude mas velocidade de chegada… levando a bruma pro alto como se esta fosse ‘sólida’ mas maleável… inacreditável… Havia um ‘espaço’ vazio entre a água e a bruma… o espaço da expulsão, espaço que fisicamente estava sendo ocupado pelo calor da água, mas que era poeticamente traduzido como “vai… eu aqueci… te afasta e me deixa acolher o sol que chega…” …
…E o dia se expõe… o sol se levanta e o céu se desnuda… quando chego na obra gigante da Av. Assis Brasil, zona norte da cidade… imenso Restaurante Fragata II, com 994m² que logo vai ter mais de 300 pessoas se deliciando por lá… e o sol está alto, a cidade descoberta, o rio liberto de seu manto, o céu azul como se fosse primavera, a temperatura agradável, a cidade normalizada… eu faminta e acabando minha manhã às 14:30hs… Um dia normal.
Beijo indo dormir, que amanhã tem mais…
Jane/RS